Desde o começo da pandemia circulam pela internet ideias de brincadeiras e atividades para as famílias. Já demos sugestões por aqui também. Muitas destas ideias são brincadeiras artísticas como desenhar, fazer teatro de sombras, dançar, e por aí vai. Já é senso comum que a arte é fundamental na primeira infância. Mas qual o seu papel exatamente? Para entender tudo isso melhor, conversei com Denise Schnyder, especialista em pedagogia waldorf e arte educação. Schnyder foi coordenadora de artes do Instituto Sidarta e hoje integra a equipe da CLOE, plataforma digital de aprendizagem ativa.
Você é de exatas ou de humanas?
Perguntei para a profissional porque as disciplinas exatas são mais valorizadas do que as de humanas na maior parte das escolas. Ela diz que até recentemente argumentava-se que essas eram as áreas de conhecimento mais procuradas pelo mercado e que garantiam um maior retorno financeiro. Além disso, “elas são consideradas mais difíceis e, de fato, são disciplinas que exigem um alto grau de abstração. Tendemos a separar pensamento, sentimento e corpo; as exatas parecem ser capazes de atuar de forma fria, sem interferência do sentimento. No entanto, sabemos hoje que sentimento e corpo também são extremamente importantes.”
O valor das humanas
Schnyder explica que as humanas são essenciais, pois garantem o desenvolvimento da abstração, da percepção de equilíbrio, da percepção de risco, da capacidade de esforço, resiliência e transposição de conceitos. Complementa dizendo que “as competências mais desenvolvidas nas áreas de humanas são base para o aprendizado de matemática e para o sucesso profissional em uma carreira dessa natureza.”
A criança é um artista
A pedagoga explica que as artes são fundamentais na primeira infância. “Temos por natureza um impulso imitativo que busca reproduzir o que vemos para, assim, compreendermos melhor o mundo. Também carregamos conosco, por toda a vida, um impulso material, que nos deixa curiosos para tocar as coisas, nos faz querer sentir o que é material, as texturas e temperaturas.” Segundo Schnyder, a criança que começa a explorar materiais e reproduzir o que percebe no mundo, não faz isso somente como brincadeira, mas sim como um estudo sério que desempenha com alegria ou concentração. Ao perceber os limites dos materiais e as especificidades das formas, ao errar e experimentar, elas começam, então, a criar.
O olhar de quem vê
Denise Schnyder explica que o diálogo fluido que se estabelece entre o impulso imitativo e formal e a investigação material da criança é essencial para o desenvolvimento da imaginação e, consequentemente, da abstração, tão necessária nas disciplinas de exatas. Quando valorizado e observado, “o impulso lúdico é capaz de se desenvolver e se aprofundar, tornando-se um impulso artístico: uma expressão que considera o olhar de um espectador e, portanto, se torna ainda mais consciente de seus efeitos.”
A arte e o diálogo entre os saberes
Desenvolvemos esse olhar na criança incentivando o contato dela com obras de arte, fazendo perguntas, compartilhando nossas percepções. Schnyder esclarece que “teatro, música, dança e artes plásticas, não são ciências humanas, nem ciências exatas, são áreas de conhecimento que transitam, criando diálogos entre o mundo formal e o mundo material.” As artes estimulam a capacidade de escuta e de observação, além de desenvolverem flexibilidade, esforço e resiliência. São bases para a construção de todas as competências que serão trabalhadas mais adiante.”
*Com informações da Masternews









