Uma liderança comunitária de 67 anos sofreu agressões, ameaças de morte e uma tentativa de homicídio na noite da última segunda-feira (31), nas proximidades da foz do rio Tapauá, no município de Tapauá, a 449 quilômetros a sudoeste de Manaus.
O caso foi comunicado às autoridades, e os suspeitos foram detidos pela Polícia na noite de quarta-feira (2).
Segundo relatos, a vítima realizava atividades de vigilância ambiental em uma praia utilizada para a desova de quelônios quando foi abordada por quatro pessoas. O grupo teria agredido a liderança com golpes na cabeça e efetuado dois disparos de arma de fogo.
Um dos tiros atingiu a orelha da vítima. Os suspeitos também teriam feito ameaças de destruir as bases de vigilância comunitária instaladas ao longo do rio Tapauá.
Após o ataque, a liderança recebeu atendimento médico e permanece estável.
Ataque pode ter relação com fiscalização ambiental
Dias antes da tentativa de homicídio, equipes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) haviam realizado uma operação de fiscalização contra crimes ambientais na região.
Moradores suspeitam que o ataque possa ter sido uma retaliação às ações de conservação ambiental desenvolvidas por povos indígenas e comunidades ribeirinhas ao longo do rio Tapauá.
Na região, a pesca é fundamental para a alimentação, a cultura e a economia das comunidades. Os moradores também desenvolvem iniciativas de manejo comunitário do pirarucu e de proteção territorial, que contribuíram para a recuperação dos estoques pesqueiros.
Apesar dos resultados, a continuidade das ações de conservação é considerada ameaçada pela falta de fiscalização, infraestrutura e presença permanente do poder público.
“É necessária uma atuação conjunta contínua para garantir a segurança das comunidades e a continuidade dos trabalhos ambientais prestados pelos moradores, que agora estão assustados e ainda mais vulnerabilizados”, relatou uma liderança comunitária que também já teria sido alvo de ameaças.
Coletivo do Pirarucu cobra medidas
Diante do ataque, o Coletivo do Pirarucu, que reúne cerca de 2,5 mil famílias indígenas e ribeirinhas envolvidas no manejo comunitário do pirarucu no Amazonas, solicitou medidas urgentes às autoridades estaduais e federais.
A entidade encaminhou uma carta nesta sexta-feira (4), véspera do Dia da Amazônia, cobrando providências para garantir a segurança das lideranças e a continuidade das atividades de conservação na região.
Segundo o documento, a preocupação com a segurança de lideranças responsáveis por organizações sociais e ações de vigilância já havia sido apresentada às autoridades em 2022.
O coletivo também destacou a importância da pesca para os povos indígenas e comunidades ribeirinhas do rio Tapauá e seus afluentes, além do histórico de organização comunitária em torno do manejo sustentável do pirarucu.
Medidas solicitadas
Entre as principais reivindicações apresentadas pelo Coletivo do Pirarucu estão:
- investigação e responsabilização dos envolvidos no ataque;
- proteção imediata às atividades de manejo previstas para 2026;
- reforço da presença dos órgãos públicos na região;
- atuação da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA-AM) e do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam);
- apoio do Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Funai às ações de fiscalização;
- reforço das forças de segurança;
- melhoria da infraestrutura utilizada na vigilância comunitária;
- fiscalização contínua da frota pesqueira comercial.
As atividades de proteção das praias de desova e de manejo do pirarucu estão previstas para ocorrer entre setembro e novembro, envolvendo o povo indígena Paumari e comunidades vinculadas ao Acordo de Pesca da Foz do Tapauá.
A carta também pede medidas para garantir a continuidade das ações de manejo sustentável e fortalecer a proteção das comunidades que atuam diretamente na conservação ambiental.
O documento completo foi disponibilizado pelo Coletivo do Pirarucu.








