O ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto comunicou, na noite desta quinta-feira (17), sua saída do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) após quase 35 anos de filiação. Em carta aberta nas redes sociais, direcionada ao presidente nacional da sigla, Bruno Araújo, o agora ex-tucano demonstrou descontentamento com a nova direção do partido no Amazonas, que terá o comando do senador Plínio Valério.
“Fiquei feliz e aliviado quando soube, pelo meu filho e só por ele, da decisão do PSDB de entregar o comando regional do Amazonas a um grupo de pessoas às quais desejo felicidades, êxitos, distância da corrupção e independência em relação a certos partidos e certos políticos”, escreveu o ex-prefeito. “Fico feliz, porque me machucava bastante o coração ver aquele que já foi o melhor – e de mais significativo legado – partido da história republicana brasileira se descaracterizar e se ir transformando numa agremiação parecida com tantas outras, filhas da mesmice, da irrelevância e da mediocridade”, complementou.
Arthur Neto era o então presidente estadual do partido. A decisão da troca de comando da sigla foi publicada nesta quinta-feira e assinada pelo presidente nacional do PSDB. No Amazonas, o partido era historicamente comandando pelo grupo político do ex-prefeito.
Derrotado nas urnas nas eleições deste ano para o cargo de senador – a qual teve uma votação pífia que contrasta com sua história de destaque no Congresso Nacional na década de 1990 e início dos anos 2000 -, o ex-prefeito de Manaus se referiu ao partido tucano como “decadente” e chamou de “alforria” sua desfiliação da sigla. “Em política, ninguém mata, ninguém morre”, afirmou, parafraseando o poeta Ronaldo Cunha Lima.
Confira a íntegra do anúncio:
Presidente Bruno Araújo,
Fiquei feliz e aliviado quando soube, pelo meu filho e só por ele, da decisão do PSDB de entregar o comando regional do Amazonas a um grupo de pessoas às quais desejo felicidades, êxitos, distância da corrupção e independência em relação a certos partidos e certos políticos.
Fico feliz, porque me machucava bastante o coração ver aquele que já foi o melhor – e de mais significativo legado – partido da história republicana brasileira se descaracterizar e se ir transformando numa agremiação parecida com tantas outras, filhas da mesmice, da irrelevância e da mediocridade.
Minha lealdade e senso de responsabilidade me impediram, durante um bom tempo, de abandonar o partido que, incontestável e efetivamente, ajudei a construir.
Obrigado, portanto, por me propiciar a oportunidade de sair, de cabeça erguida e aliviado da carga que já não me agradava carregar.
Fiz parte da 1ª Executiva Provisória do MDB, no Rio de Janeiro, por indicação da liderança estudantil, para confrontar o adesista governador Chagas Freitas e não permitir que o partido de oposição à ditadura fosse dominado pelos que tinham apego mórbido a cargos e vantagens públicos.
Daí em diante foi uma sequência de missões que, inapelavelmente, me levavam a lutar com muita força pelo restabelecimento do regime democrático.
Conquistada a democracia, muitas lutas passaram a ser motivo de vida para meu cérebro e meu coração.
Fui deputado federal e senador por 20 anos, duas vezes líder congressual do presidente-estadista Fernando Henrique Cardoso, que me conferiu a honra de poder colaborar com o Brasil na condição de Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Como senador, liderei a brilhante, influente e numerosa bancada de senadores tucanos, atuando na trilha de uma oposição dura e sensata ao presidente Lula da Silva. Capitaneamos a derrubada do imposto injusto, que cobrava a mesma alíquota de ricos e pobres: a prejudicial CPMF. E mostramos ao presidente reeleito que, com aquela bancada respeitável a vigiá-lo, ele jamais conseguiria o que era, na verdade, o “venezuelano” terceiro mandato.
Muito bem, prezado presidente Bruno. Agradeço seu gesto. Essencial para entender a índole daqueles que hoje dirigem um partido decadente, que já foi o mais respeitado no país, com reflexos mais que positivos no exterior. Mas volto a agradecer sua atitude, para mim uma alforria, uma libertação. O futuro a Deus pertence. E como bem dizia o poeta Ronaldo Cunha Lima, “em política, ninguém mata, ninguém morre”.
Há futuro pela frente e, para mim, nem posso dizer se, um dia, me filiarei a algum outro partido.
Meu coração diz que não; vamos ver a mensagem do cérebro.
Comunico—lhe, enfim, minha desfiliação do partido que recebeu quase 35 anos da modesta contribuição que eu e minhas limitações lhe poderiam emprestar.
Saudações democráticas,
Arthur Virgílio Neto
*com informações O Poder









