O caso da morte do menino Benício Xavier, de 6 anos, continua a mobilizar autoridades e a levantar dúvidas sobre possíveis falhas médicas e do sistema de prescrição do Hospital Santa Júlia, em Manaus. A criança morreu na madrugada de 23 de novembro, após receber doses de adrenalina que, segundo a investigação, teriam sido aplicadas de forma incorreta.
Durante o inquérito, três testemunhas relataram que a médica responsável pelo atendimento, Juliana Brasil Santos, teria tentado alterar o prontuário eletrônico da criança para encobrir um erro na prescrição do medicamento. As informações foram confirmadas pelo delegado Marcelo Martins, titular do 27º Distrito Integrado de Polícia (DIP).
Segundo a Polícia Civil, funcionários que estavam de plantão no dia afirmaram que Juliana tentou acessar a prescrição original para “suprimir e editar dados” do sistema. A investigação analisa ainda a possibilidade de dolo eventual, ou seja, se houve indiferença quanto ao risco de morte do paciente.
A médica já havia admitido o equívoco na prescrição em documentos enviados à polícia e em mensagens trocadas com o médico Enryko Queiroz — embora sua defesa alegue que a confissão ocorreu “no calor do momento”.
Também investigada, a técnica de enfermagem Raiza Bentes Paiva, responsável por aplicar a adrenalina, afirmou ter ficado sozinha durante parte do atendimento, versão confirmada pelo enfermeiro Tairo Neves Maciel e que contradiz a narrativa da médica.
Defesa aponta falha no sistema do hospital
Em nova manifestação, os advogados de Juliana Brasil apresentaram documentos e um vídeo que — segundo eles — mostram falhas no sistema digital de prescrição utilizado pelo Hospital Santa Júlia.
A defesa afirma que a médica teria prescrito adrenalina por via inalatória, mas o sistema teria alterado automaticamente a via de administração para intravenosa devido a instabilidades ocorridas no dia do atendimento. O advogado Felipe Braga afirmou que outros profissionais da saúde já haviam criticado esse tipo de automação da plataforma.
Versão da família
O pai de Benício, Bruno Freitas, contou que levou o filho ao hospital com tosse seca e suspeita de laringite. Segundo ele, Juliana prescreveu lavagem nasal, soro, xarope e três doses de adrenalina intravenosa, de 3 ml, aplicadas a cada 30 minutos.
A mãe do menino chegou a questionar a técnica de enfermagem sobre a via intravenosa, já que Benício sempre recebeu adrenalina por nebulização. A técnica afirmou que nunca tinha aplicado o medicamento dessa forma, mas seguiu o que constava na prescrição.
Após a primeira dose, a criança passou mal e foi levada para a sala vermelha. A oxigenação caiu para cerca de 75%. Mais tarde, Benício foi transferido para a UTI, onde sofreu várias paradas cardíacas durante a intubação. O quadro se agravou e ele morreu às 2h55 do dia 23 de novembro.
Pedido de prisão e medidas cautelares
A Polícia Civil solicitou a prisão preventiva da médica, mas a Justiça decidiu que ela responderá em liberdade, com habeas corpus preventivo.
O Ministério Público do Amazonas, porém, manifestou-se favorável à suspensão imediata do exercício profissional da médica e da técnica de enfermagem, além de restrições de deslocamento e comparecimento periódico em juízo.
A investigação segue em andamento para definir se houve erro humano, falha do sistema ou ambos — e se os envolvidos devem responder criminalmente pela morte do menino.








