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Como uma escola no interior do Amazonas transformou a floresta em ferramenta de ensino

Com financiamento da Katia Francesconi Foundation, formação realizada pela Casa do Rio fortaleceu práticas pedagógicas ligadas a território e saberes tradicionais

Redação por Redação
20 de maio de 2026
em Meio Ambiente
FOTOS: Raquel Bastos / Casa do Rio

FOTOS: Raquel Bastos / Casa do Rio

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Enquanto boa parte das escolas brasileiras ainda separa ensino e território, uma escola no interior do Amazonas vem construindo o caminho contrário. Na comunidade Igapó-Açu, às margens da BR-319, a floresta, o rio, as brincadeiras e os saberes tradicionais ocupam cada vez mais a centralidade dentro da sala de aula.

Tais práticas, já presentes no cotidiano escolar, foram fortalecidas e valorizadas durante o 2º Encontro de Formação Pedagogia da Floresta, realizado pela Casa do Rio com financiamento da Katia Francesconi Foundation, responsável pelo apoio integral à iniciativa.

A formação ocorreu entre os dias 16 e 18 de abril de 2026, na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental, que funciona dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu, no município de Manicoré, a 260 quilômetros de Manaus. A ação deu continuidade ao trabalho iniciado em 2023, quando a primeira edição do encontro reuniu mais de 300 professores da rede municipal de ensino.

Desta vez, o foco esteve na própria escola e durante três dias, professores, gestores, auxiliares, merendeiras, comunitários e parceiros participaram de atividades construídas a partir das vivências do território. Ao todo, 21 participantes integraram a formação, conduzida por cinco consultoras.

Pedagogia da Floresta
Para Lia Mandelsberg, coordenadora do projeto, a segunda edição representa um amadurecimento da forma como a Casa do Rio trabalha a Pedagogia da Floresta junto aos educadores e à educação pública.

“Enquanto a primeira edição alcançou uma ampla rede de escolas e atuou em diferentes frentes, o segundo aprofundou o trabalho dentro de uma única escola, localizada em uma área de conservação ambiental e que já possui longo histórico de parceria com a instituição”, explicou.

Pedagogia da Floresta é uma metodologia que compreende a floresta como espaço de produção de conhecimento, cultura e convivência. Nesse contexto, aprender não se limita à sala de aula. O conhecimento também está nos modos de plantar, pescar, colher, cozinhar, brincar, cuidar e viver em comunidade.

Esse modo de ensinar e aprender já faz parte da realidade da escola desde 2017, quando a Casa do Rio contribuiu para a construção da escola, pensando o espaço e as práticas em diálogo direto com os modos de vida da comunidade.

“A formação foi construída a partir de um planejamento participativo intenso, pensado para dialogar com as principais necessidades da Escola Igapó-Açu. E a Pedagogia da Floresta parte justamente desse princípio: valorizar os saberes locais e a vida construída com, para e da floresta”, detalhou Lia.

Práticas pedagógicas e brincadeiras
As atividades reuniram práticas artísticas, corporais, lúdicas e conceituais, em um processo que alternou teoria e prática e dialogou com os ritmos da floresta, das águas e da vida amazônida.

As metodologias foram conduzidas pelas consultoras Carla do Carmo, Ceane Simões, Annie Martins e Renata Peixe-Boi. Entre os conteúdos trabalhados estiveram a Pedagogia da Onça Pintada, práticas inspiradas no Teatro do Oprimido e atividades voltadas à compreensão das infâncias e das identidades construídas no território.

A consultora Annie Martins destacou que a experiência ampliou reflexões sobre educação e pertencimento dentro da floresta amazônica.

“Como mulher, mãe e indígena Tikuna em retomada, vivenciar e estimular trocas sobre uma educação mais sensível foi profundamente transformador. Nesse contexto, o Teatro do Oprimido entrou como metodologia para potencializar práticas que professoras, professores e estudantes do Igapó já desenvolvem, mas agora com mais consciência” afirmou Annie, que é docente de Teatro na Universidade do Estado do Amazonas.

“Com os jogos teatrais, redescobrimos nosso corpo-bicho, corpo-rio, corpo-território, impregnado pela floresta e pelo modo de viver no Igapó. O Teatro do Oprimido potencializou retomadas indígenas, costumes ancestrais e escutas sensíveis”, completou.

Além das práticas pedagógicas, o encontro promoveu brincadeiras, vivências e atividades de memória das infâncias. Na comunidade, brincar faz parte do aprendizado. Pular n’água, remar, subir em árvores, brincar com sementes e reconhecer plantas, bichos e caminhos do rio integram o cotidiano das crianças e ajudam a construir formas de aprender ligadas à floresta.

Com isso, a formação promoveu a integração entre escola, comunidade e saberes tradicionais, aproximando o currículo escolar das experiências vividas pelos moradores.

Alimentação, cuidado e apoio
O encontro também abordou alimentação, cuidado e cultura alimentar amazônica. A Cozinha Boca da Mata, conduzida pela consultora Renata Peixe-Boi, encerrou a programação com uma atividade voltada ao preparo de alimentos com ingredientes locais e sem uso de agrotóxicos, dentro da realidade da escola. A participação das merendeiras reforçou o entendimento de que o cuidado e a alimentação também fazem parte dos processos educativos.

“O envolvimento de toda a equipe escolar no processo formativo reconhece que todas as pessoas da escola participam da formação das crianças e que cada função tem importância na educação”, enfatizou Lia.

“Vale destacar que o apoio de Katia Francesconi Foundation tem sido fundamental para a continuidade do trabalho, possibilitando que a formação aconteça de forma aprofundada, fortalecendo práticas já existentes na comunidade”, pontuou.

Em Igapó-Açu, onde crianças aprendem entre rios, árvores e saberes compartilhados entre gerações, a experiência aproxima escola e território para que o aprendizado permaneça vivo nas práticas cotidianas, nas memórias da comunidade e perpetue para as próximas gerações.

“Se o primeiro encontro expandiu em quantidade, o segundo cresceu como árvore: para baixo, fortalecendo as próprias raízes”, concluiu Lia Mandelsberg.

Tags: AmazonasFlorestaMeio Ambiente

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