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Falada em cinco continentes, língua portuguesa ainda é pouco conhecida

Falta de intimidade com idioma foi primeiro preconceito, diz congolês

Agência Brasil por Agência Brasil
13 de maio de 2025
em Brasil
Foto: Reprodução/Site Fundação Telefonica Vivo

Foto: Reprodução/Site Fundação Telefonica Vivo

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O artista plástico congolês Serge Makanzu Kiala (foto), 43 anos, mora no Rio de Janeiro desde 2016. Quando chegou, não falava a língua portuguesa, mas como fez um curso de espanhol antes de chegar no país, participou de aulas na Cáritas Brasil, organização de assistência social a refugiados sem fins lucrativos, que o acolheu de início. Assim, ele conseguiu se comunicar nos primeiros contatos no país.

O trabalho, durante 8 anos, no serviço de atendimento a visitantes do Museu do Amanhã, o ajudou a conhecer a língua portuguesa. “O que facilitou falar português aqui no Brasil foi meu trabalho. Quando fui trabalhar no Museu do Amanhã, no atendimento, estava sempre com o público e sempre praticando. Aquele contato com os cariocas, os brasileiros, praticado no dia a dia, foi o que me deu mais acessibilidade para entender a língua portuguesa”, disse em entrevista à Agência Brasil.

Serge, que deixou o emprego no Museu no mês passado, continua empenhado em aprofundar o conhecimento da língua portuguesa e confiante em arranjar nova vaga de trabalho.

“A língua não é só falar, é escrever e ler para ser completa. Eu escrevo e faço testes em português, mas se for um teste longo, vou ter dificuldade e quem vai ler, vai ver que é de uma pessoa que ainda está praticando. O meu português escrito ainda é difícil”, revelou, acrescentando que acredita na prática para ampliar o seu conhecimento do idioma.

Em 2023, quando participou de um painel sobre refugiados no Festival Black2Black, no centro do Rio, revelou que a falta de intimidade com o idioma nacional foi para ele o primeiro preconceito enfrentado por aqui. Passado o tempo, apesar de hoje já falar português, embora com acento francês, seu idioma original, ainda não se livrou do preconceito.

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Parte disso Serge identifica pelo pouco conhecimento, no Brasil, de como é a África. Ao contrário do que ocorreu em seu continente, onde ele tinha mais informações sobre o Brasil, e foi isso que despertou nele a vontade de se mudar para cá. Segundo o artista, que é congolês, mesmo depois desse tempo no país, continua sendo identificado como angolano. 

“Isso é uma coisa que está na cabeça dos brasileiros. Tem muitas pessoas que não sabem a história da África. Até hoje as pessoas me chamam sempre de angolano. Mesmo que eu fale que sou do Congo, perguntam o Congo fica onde? Amanhã te chamam de novo: angolano”, explicou.

Serge vê semelhanças entre o português e o francês e isso têm contribuído para conseguir diminuir a distância e as dificuldades em avançar no conhecimento do idioma do Brasil.

CPLP

Embora seja o mais falado no Hemisfério Sul e um dos idiomas com mais falantes em todo o mundo, de acordo com o diretor-geral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Armindo Fernandes, somos mais de 280 milhões de pessoas em cinco continentes, o entendimento da língua portuguesa não ocorre com facilidade entre pessoas com outras línguas.

Fernandes citou o dado na segunda-feira (5), quando se comemorou mais um Dia Mundial da Língua Portuguesa, em São Tomé e Príncipe, durante a 3ª Reunião Extraordinária de Ministros da Cultura da CPLP.

Parceira oficial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) desde 2000, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa estabeleceu a data em 2009 e em 2019, proclamou na 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, e o 5 de Maio de cada ano como Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Acadêmico

Para o vice-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Antônio Carlos Secchin, doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de literatura brasileira em universidades no exterior, o primeiro passo para difusão da língua portuguesa é fazer com que seja reconhecida como língua oficial da ONU.

“Pelas divergências do português do Brasil para Portugal e para Angola e Moçambique, acaba que a língua portuguesa não se oficializa na ONU. Do ponto de vista diplomático, isso é o mais importante a ser feito a curto prazo, porque o espanhol é, o inglês, o francês também e o português está fora das línguas oficiais da ONU”, defendeu em entrevista à Agência Brasil.

Apesar disso, o acadêmico vê com muito interesse o fato do português estar presente na Ásia, na África, na América e na Europa. “Isso é uma prova da vitalidade, porque é um dos idiomas mais falados do mundo com certeza”, disse.

No entanto, ele afirmou que a repercussão do idioma não está à altura da sua importância.

“É falado como primeira língua. Infelizmente é muito pequeno o número de pessoas que adotam o português como uma segunda ou terceira língua. A projeção de uma língua não se mede apenas pelo número de pessoas que a falam, mas se mede muito pelo número de pessoas que a falam como segunda ou terceira língua. Isso é que é importante. Tem o mandarim que é a língua mais falada do mundo pelo número de chineses, mas quantos não chineses falam o mandarim? Não é o número falado no país. É o número falado em outros lugares por pessoas que escolhem aquela língua como segunda ou terceira, Enquanto uma língua como o espanhol, o inglês ou o francês o número é imenso de pessoas não espanholas, americanas e francesas falam”, disse, acrescentando que o árabe tem a mesma situação.

Tags: Brasilcontinenteslíngua portuguesa

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