Cientistas defenderam que o Governo do Amazonas adote um lockdown duradouro, de no mínimo três semanas, e não Toque de Recolher, em vigência no Estado – até o dia 07 de fevereiro – como meio de tentar frear a transmissão comunitária do coronavírus e a tragédia de mortes que sucumbiu Manaus, em janeiro, considerado um mês apocalíptico na Amazônia.
“É imprudente falar em estabilização com tantas incertezas relativas ao real número de casos novos em Manaus, à nova variante e à possibilidade cada vez mais real de reinfecções em níveis que podem ser maiores do que se acreditava até poucos meses atrás. O fato é que ainda temos um elevado número de casos novos sendo notificados todos os dias, em plena vigência das medidas restritivas, que são registros de uma grande fila de espera de pacientes internados, um grande fila de espera de pacientes graves que precisam de internação, grande número de pessoas morrendo e de uma grande quantidade de pessoas em risco. Portanto, como é possível dizer que a estabilização é algo positivo? É repetir o erro da primeira onda, sem o menor pudor. Só é possível falar em melhoria das condições sanitárias, de forma segura, quando tivermos redução drástica de mortes e internações, coisa que estamos bem longe ainda”, disse Jesem Orellana, epidemiologista e pesquisador da Friocruz/Amazônia.
O toque de recolher 24H no Estado iniciou no dia 14 de janeiro. No dia 29, o decreto foi prorrogado, com ajustes e flexibilizações, se estendendo até o próximo domingo (7). Em toda a pandemia o Amazonas não teve um lockdown. O vizinho Estado do Pará já está no segundo bloqueio total e fechou a divisa territorial ( barreiras sanitária) com o Amazonas.
“O governo está falando nas últimas 24h em estabilização. Basicamente é a repetição do filme que assistimos a partir de junho de 2020, quando os níveis de mortalidade por Covid-19 ainda eram altos e foram considerados normais. O resultado todo mundo lembra, desmantelamento do hospital de campanha, relaxamento nas medidas de contenção da epidemia de julho em diante, seguido de aumento significativo nos casos e mortes em setembro e outubro, até alcançar o dramático pico explosivo de janeiro de 2021. Cabe ressaltar que a segunda onda foi negada até o fim de dezembro de 2020, mesmo com o nítido colapso da rede médico-hospitalar ainda em dezembro”, completou.
REPETIDOS ERROS NA PANDEMIA E CRÍTICAS A FVS/AM
O cientista Jesem Orellana não poupa críticas à Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, por permitir o afrouxamento de restrições em Manaus e ignorar os avisos da ciência, o que, segundo ele, vem ocorrendo desde a primeira onda da epidemia.
O pesquisador diz que a FVS deveria adotar restrições mais rigorosas para a capital e assentar suas decisões sanitárias em dados realmente confiáveis sobre o número efetivo de reprodução da infecção (Re ou Rt), por exemplo, já que esse indicador depende bastante da real estimativa do número de infectados ou de doentes em toda a população, algo que Manaus nunca fez de forma representativa e válida do ponto de vista epidemiológico.
“Uma prova disso foi a errática avaliação feita pela FVS, em dezembro de 2020, quando subdimensionou a crítica situação epidemiológica da epidemia em Manaus, em pleno colapso da rede médico-hospitalar que já era notícia na imprensa nacional e internacional. Dias depois, novamente, a humanidade se horrorizou com a nova versão da tragédia manauara, onde mortes por asfixia fora e dentro dos hospitais consolidaram Manaus como a capital mundial da Covid-19”, lamentou.
O cientista da Fiocruz aponta dados da crise humanitária em Manaus: em julho de 2020, foram 121 óbitos; em janeiro de 2021 foram registradas 2.301 mortes por covid-19. O crescimento de óbitos – entre cinco meses –, comparado ao menor número mensal de toda a pandemia (julho), alcança o índice de crescimento 1.800%. “Este comportamento é o típico padrão explosivo e de total descontrole na transmissão comunitária do novo coronavírus”, analisa.

Por isso, Orellana defende o “Lockdown” mínimo de pelo menos três semanas e não um “faz de conta”, como ele avalia as medidas tomadas, até então, e protestou contra a gestão da FVS/AM. O pesquisador pediu que o governador mude a equipe.
“Não podemos relaxar com níveis ainda tão elevados, tão ameaçadores, no contexto de nova variante. Sabemos que essa gestão que está à frente da Vigilância em Saúde, é muito ruim. Chega a ser descomprometida de tão fraca que é. Claro que tem boas intenções, mas o nível técnico é baixo e deixa muito a desejar. Não podemos entregar a gestão da epidemia a quem deu duas trágicas provas que é, claramente, incompetente para tal tarefa”, questiona.
INPA PEDIU AO PREFEITO BLOQUEIO TOTAL
De posse de um estudo, feito em conjunto com mais sete pesquisadores e que será publicado em uma revista cientÍfica internacional, o biólogo do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), Lucas Ferrante, avisou, pessoalmente, ao prefeito David Almeida (Avante), no dia 23 de janeiro, sobre a necessidade urgente de um lockdown em Manaus e apontou também uma terceira onda de contaminação mais longa e que, potencialmente, pode causar mais mortes do que a registrada em 2020/2021.
É o que diz o site The Intercept Brasil, em matéria publicada no dia 3 de fevereiro, quarta-feira passada. LEIA A MATÉRIA COMPLETA AQUI









