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Ufam inicia projeto de formação digital e científica para jovens ribeirinhos e indígenas na RDS do Tupé

Iniciativa capacita adolescentes de reserva sustentável a unir saberes tradicionais e tecnologia na Amazônia

Redação por Redação
3 de maio de 2026
em Amazônia
Instagram: @luhenmidia

Instagram: @luhenmidia

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Com o objetivo de capacitar alunos e professores da Comunidade São João do Tupé, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, situada na margem esquerda do Rio Negro, zona rural de Manaus, nas áreas digital e científica, o projeto “Ribeirinhos Cientistas” oferece, entre abril e maio, cursos voltados a estudantes de 11 a 14 anos. A iniciativa ensina os adolescentes não apenas a divulgar nas redes sociais o ambiente em que vivem, mas também a compreender a natureza e o contexto amazônico em que estão inseridos, para que possam mostrar na internet a realidade e os desafios de quem mora na Amazônia.

A atividade integra o Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PPGECIM) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com financiamento da Capes/Ministério da Educação e apoio da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED), e envolve 18 alunos ribeirinhos e indígenas da RDS do Tupé. Localizada a 30 quilômetros de Manaus e acessível apenas por barco ou lancha, a reserva possui 11.930 hectares protegidos e reúne seis comunidades: Livramento, Julião, Agrovila, Colônia Central, São João do Tupé e Tatu, conhecidas pelo uso dos recursos naturais e pela presença de povos indígenas como Tatuyo, Tuyuka e Dessana.

Segundo a coordenadora do projeto “Ribeirinhos Cientistas”, professora Dra. Thais Castro, a iniciativa envolve alunos e professores da Escola Municipal São João, única da RDS do Tupé, na análise de desafios locais, como as cheias e as secas. As integrantes do projeto, com formação em ciências naturais, biologia, física, matemática e computação, trabalham a partir do conhecimento que os estudantes e suas famílias já possuem. Assim, jovens que já utilizam redes sociais como Instagram e TikTok podem deixar de ser apenas espectadores e passam a ser protagonistas, capazes de registrar o cotidiano, questionar e se engajar nas pautas que afetam suas comunidades.

“O projeto destaca o papel dos jovens cidadãos em formação como futuros cientistas. O objetivo é que, ao final, os alunos tenham uma iniciação científica sólida, valorizem os conhecimentos tradicionais e percebam que também podem ser autores e cientistas. Nos encontros, trabalhamos conceitos básicos de ciência e matemática para estimular a curiosidade e o pensamento crítico. Os estudantes já produzem fotos e vídeos para redes sociais, mostrando que estão prontos para assumir o protagonismo em suas comunidades”, explica.

Entre os jovens participantes do “Ribeirinhos Cientistas” está Luna Blankenhorn, 14 anos, estudante do 9º ano e pertencente à etnia Dessana. Ela vive na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé e já se posiciona sobre os desafios locais, especialmente no acesso à educação, marcado pela dependência do transporte escolar fluvial, realizado pela chamada “lancha escola”. “Considero o projeto muito importante porque nos permite mostrar a realidade da nossa comunidade, como os grafismos indígenas e o ambiente onde estudamos, próximo ao rio e à natureza. Aqui, um dos maiores desafios é o transporte: muitos alunos dependem do barco escolar, mas às vezes ele não funciona, o que atrapalha bastante nossa rotina. Por isso, acredito que deveria haver mais cuidado com essa questão.”

Já a secretária da Escola Municipal São João, Ila Oliveira, ressalta que, apesar das dificuldades enfrentadas pela comunidade, como transporte precário, falta de energia elétrica e limitações no acesso à saúde, iniciativas educacionais têm fortalecido o vínculo entre escola e moradores. Ela destaca que “projetos como o ‘Ribeirinhos Cientistas’ são fundamentais para dar visibilidade às realidades locais e promover melhorias.”

Programação

As visitas ao RDS do Tupé seguem um planejamento definido. Em 16 de abril, os alunos escreveram uma síntese sobre o que encontraram e discutiram a contextualização para trabalhar com barcos de propulsão. Em 6 de maio, o foco será propor soluções e sugestões. Já em 29 de maio, está prevista a construção e o lançamento do barco com propulsão, com os próprios alunos registrando a experiência em vídeo para compor o acervo dos projetos. Por fim, será realizada a apresentação e demonstração das iniciativas desenvolvidas, encerrando o ciclo de atividades presenciais.

Além das visitas à comunidade, o projeto prevê a produção de um livro digital reunindo os projetos e registros fotográficos dos estudantes, a exibição das fotos em um site dedicado à iniciativa e a gravação de vídeos em que os próprios alunos apresentam seus trabalhos, ampliando o alcance e a visibilidade do que foi construído coletivamente.

Saber científico

A professora Stephane Ladislau, formada em Ciências Naturais, atua no projeto “Ribeirinhos Cientistas” com o objetivo de despertar nos alunos a percepção de que também são cientistas. O trabalho vem valorizar os saberes que eles já possuem sobre o ambiente em que vivem, mostrando que esse conhecimento é parte essencial da construção da ciência.

“Eles possuem conhecimento, e ciência é justamente isso: um conjunto de saberes. Conhecer sobre plantas, o rio ou os pássaros também é ciência. Eles já compartilharam um pouco sobre o céu do Tupé, que, para eles, é muito mais estrelado do que na zona urbana de Manaus, com direito a ‘estrelas cadentes’. Acredito que os alunos podem usar esse conhecimento para mostrar a realidade da comunidade, suas experiências e vivências. Muitas vezes eles pensam que isso não é importante, mas é. Conhecer a realidade deles é fundamental para todos nós. É uma troca”, detalha.

Já a professora Letícia Gabriela, também formada em Ciências Naturais, participa do projeto com o propósito de integrar o ensino científico ao uso da tecnologia. As atividades que desenvolve aproximam os estudantes dos recursos digitais e, ao mesmo tempo, valorizam os saberes da própria comunidade. Envolve a observação do ambiente, o registro fotográfico e a criação de quizzes que conectam cultura local e aprendizado científico.

“Levamos os alunos para a área externa da escola, onde exploraram curiosidades locais, como o rio e grafismos indígenas. A partir das fotografias que tiraram, planejamos criar quizzes que serão apresentados em uma mostra cultural para a comunidade e também enviados para o público externo em Manaus. Por exemplo, um grafismo da tribo Tuyuka pode parecer apenas um desenho, mas, na explicação dos alunos, ele representa a folha do tucumã. Transformar esse conhecimento em quizzes torna o aprendizado divertido e significativo.”

Tags: EstudantesjovenstecnologiaUfam

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