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Investimento global volta a crescer e se concentra em poucos megaprojetos

Relatório da Unctad mostra Brasil em quinto lugar entre os maiores destinos mundiais de Investimentos Estrangeiros Diretos, IED; para países em desenvolvimento, novo cenário traz oportunidades e riscos

Redação por Redação
10 de julho de 2026
em Mundo
Apesar dos avanços em muitas frentes, muitas comunidades ao redor do mundo ainda não conseguem usufruir dos benefícios das tecnologias digitais. Foto: ONU/Chetan Soni

Apesar dos avanços em muitas frentes, muitas comunidades ao redor do mundo ainda não conseguem usufruir dos benefícios das tecnologias digitais. Foto: ONU/Chetan Soni

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O Investimento Estrangeiro Direto global aumentou 6%, alcançando US$ 1,6 trilhão em 2025, depois de dois anos em queda. No entanto, a recuperação é limitada, frágil e desigual, segundo o Relatório Mundial de Investimentos 2026 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad.

As entradas de IED – como são chamados – nas economias desenvolvidas cresceram 11%, enquanto os países em desenvolvimento registraram apenas 2% de crescimento, atingindo US$ 901 bilhões.

O que deve ser questionado

Segundo o secretário-geral interino da Unctad, Pedro Manuel Moreno, a questão central já não é apenas quanto investimento atravessa as fronteiras, mas para onde esse investimento está sendo direcionado, o que ele está construindo e quem realmente se beneficia dele.

A lista inclui o Brasil na quinta posição na lista dos 20 maiores destinos de IED com entradas de US$ 77 bilhões em 2025. Em 2024, foram US$ 63 bilhões. Em primeiro lugar, estão os Estados Unidos, seguido por Singapura, a região de Hong Kong e China.

Segundo o documento, várias grandes economias emergentes mantiveram ou fortaleceram suas posições entre os principais destinos de investimento. O fluxo de recursos para o Brasil, por exemplo, cresceu acentuadamente, impulsionado por investimentos em energia renovável e recursos naturais, enquanto Índia e México continuaram a atrair investimentos nos setores de serviços e manufatura, bem como na reconfiguração de cadeias de suprimentos.

A situação dos outros países de língua portuguesa

Levando-se em conta outros países de língua portuguesa, o relatório apresenta um pouco da dinâmica na Europa: empresas da China surgem como grandes investidoras em baterias e na fabricação de componentes para veículos elétricos, incluindo grandes projetos em Portugal, por exemplo.

Já os fluxos de entrada em Moçambique cresceram fortemente, atingindo cerca de US$ 6 bilhões, em grande parte devido a projetos nos setores de hidrocarbonetos e gás natural liquefeito. E Angola voltou a registrar entradas positivas de cerca de US$ 1,1 bilhão, após fluxos negativos no ano anterior, impulsionada pela retomada das atividades nos setores de petróleo e gás.

O relatório mostra que o IED para os pequenos Estados insulares em desenvolvimento, Sids, aumentaram, mas permanecendo concentrados em um número limitado de economias e setores. Os Sids africanos registraram um aumento de 38%, atingindo cerca de US$ 1,3 bilhão, liderados, por exemplo, por Cabo Verde.

Além disso, as atividades de projetos greenfield e de financiamento de projetos cresceram, principalmente nos setores de turismo, logística, energia renovável e serviços, com São Tomé e Príncipe e Cabo Verde figurando entre os principais receptores de projetos de infraestrutura.

O relatório mostra esforços para racionalizar incentivos fiscais e alinhá-los a objetivos políticos mais abrangentes. Cita, por exemplo, a Guiné Equatorial, que suspendeu isenções fiscais para empresas não ligadas ao setor de petróleo.

Para onde o investimento global está indo

Os números apontam para uma recuperação que não se traduz de forma equilibrada em oportunidades de desenvolvimento. A questão não é apenas quanto capital está sendo movimentado, mas aonde ele está indo, o que está financiando e se está ampliando a capacidade produtiva, criando empregos, fortalecendo competências e promovendo a transferência de tecnologia.

As 20 principais economias receptoras do mundo atraíram mais de 80% do IED global em 2025, evidenciando uma tendência observada em todo o relatório: os investimentos estão se tornando cada vez mais concentrados entre países, setores e projetos.

A recuperação também deve ser interpretada com cautela: os números agregados do IED nem sempre se traduzem em novas fábricas, infraestrutura, empregos ou transferência de tecnologia.

Infraestrutura relacionada à IA concentrou investimentos

O relatório mostra que as áreas ligadas à tecnologia, energia e política industrial concentraram grande parte dos investimentos. Setores estratégicos como infraestrutura de IA, semicondutores, minerais críticos e tecnologias e serviços para a transição energética responderam por 44% do valor dos chamados projetos greenfield globais (quando empresas constroem operações do zero, em vez de adquirir estruturas que já existem), ante apenas 16% em 2020.

O crescimento do valor desses projetos foi impulsionado principalmente pelos centros de dados (data centers), seguidos pelos setores de petróleo e gás e de semicondutores.

A maioria dos demais setores registrou queda, incluindo energias renováveis, infraestrutura e manufatura, demonstrando o quanto a recuperação ainda é limitada.

Países em desenvolvimento

As economias em desenvolvimento receberam mais da metade do IED mundial em 2025, mas o crescimento foi modesto e desigual entre as regiões. A Ásia em desenvolvimento permaneceu como a principal região receptora, atraindo US$ 644 bilhões. A África recebeu cerca de US$ 70 bilhões — ainda um terço acima da média do período de 2010 a 2024, apesar da queda em relação ao nível excepcional alcançado em 2024.

Os países menos desenvolvidos registraram aumento de 21% nas entradas de IED, para US$ 43 bilhões, mas continuaram representando apenas 2,7% do total mundial, com fluxos concentrados em um pequeno número de economias, em sua maioria ricas em recursos naturais.

Segundo o relatório, os governos também passaram a desempenhar um papel mais ativo na orientação dos fluxos de investimento. Em 2025, os países adotaram um recorde de 229 medidas de política de investimentos. Embora a maioria continue favorável aos investidores, muitas dessas medidas foram concebidas para atrair investimentos para setores estratégicos, fortalecer prioridades econômicas nacionais ou responder a preocupações relacionadas à segurança econômica.

Transformar investimento em ganhos de desenvolvimento

Para os países em desenvolvimento, o novo cenário dos investimentos traz tanto oportunidades quanto riscos. Muitos países correm o risco de ficar para trás à medida que os investimentos se tornam mais intensivos em capital e tecnologia e passam a depender de políticas de apoio que muitas economias em desenvolvimento não conseguem oferecer.

A Unctad defende que os países em desenvolvimento precisam de mais do que políticas de promoção de investimentos para competir nesse ambiente. Eles necessitam de pontos de entrada viáveis nas cadeias globais de valor em transformação, mecanismos mais eficazes de facilitação de investimentos, infraestrutura confiável, mão de obra qualificada, desenvolvimento de fornecedores e mercados regionais capazes de tornar os projetos mais atrativos.

Também será necessária uma maior cooperação internacional para garantir que as parcerias de investimento fortaleçam tanto a resiliência dos investidores quanto as prioridades de desenvolvimento dos países anfitriões.

Perspectivas incertas

As perspectivas para 2026 continuam desafiadoras, segundo o relatório. A incerteza quanto à política comercial, as tensões geopolíticas, os conflitos, os elevados custos de financiamento e a fragmentação econômica continuam pesando sobre as decisões de investimento.

Ao mesmo tempo, espera-se que a competição por projetos ligados a setores estratégicos se intensifique, à medida que os governos buscam assegurar futuras fontes de crescimento e vantagem tecnológica.

*Valéria Maniero é correspondente da ONU News em Genebra.

Tags: MundoONUtecnologia

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