Por Repórter Brasil
No momento em que todas as atenções estão voltadas para a situação alarmante de casos e mortes ocasionadas pela COVID-19 e a crise de saúde pública, sobretudo no Norte do Brasil, uma outra assustadora realidade vem à tona: a violência no campo e a impunidade de crimes no interior do país, especialmente na região amazônica.
A Repórter Brasil, ONG que há 20 anos realiza pesquisas, investigações jornalísticas e metodologias educacionais, lança o especial multimídia Cova Medida, que consolida os detalhes sobre 31 assassinatos de trabalhadores sem-terra, indígenas e ambientalistas ocorridos no primeiro ano do governo Bolsonaro (2019), e escancara a impunidade para esses crimes.
Mais do que sensibilizar a sociedade para a insistente guerra que acontece no interior do Brasil, envolvendo sem-terra, indígenas em defesa do território e ambientalistas (de um lado), e fazendeiros, capatazes, madeireiros, grileiros e até políticos locais (do outro), a plataforma multimídia Cova Medida documenta e pretende tirar do silêncio essas histórias de brasileiros “anônimos”, vítimas de verdadeiros massacres. O material detalha o status de investigação de cada um dos crimes e traz entrevistas com familiares: alguns parentes sofrem ameaças e enfrentam dificuldades financeiras, além do luto e da ânsia por justiça.
Massacres na Amazônia Legal
Realizado por uma equipe de mais de 20 profissionais, o Cova Medida revela, entre outros dados, que a região Norte do Brasil é a que mais sofre com esses crimes impunes: 87% das vítimas viviam na Amazônia Legal (27, no total). Só no Estado do Pará foram 12 assassinatos; no Amazonas, seis mortos injustamente; um no Amapá e um em Roraima. Além disso, os Estados do Maranhão e do Mato Grosso (que fazem parte da Amazônia Legal) somaram mais outras quatro e três execuções, respectivamente.
Dos 27 casos ocorridos na região amazônica, 18 (66%) ainda não saíram da polícia – ou seja, são investigações não concluídas. Apenas uma investigação foi considerada “concluída”: a de um indígena, no Amapá que, segundo o Ministério Público Federal, morreu afogado – versão que a família contesta, já que foram encontradas lesões no corpo da vítima.
Onze dessas execuções foram motivadas por disputa de terra; quatro em defesa do meio ambiente; oito em defesa de território indígena; uma denúncia de ilegalidades; e três ligadas a questões trabalhistas.
Dos 27 assassinatos ocorridos nos Estados da Amazônia Legal, sete foram de lideranças indígenas e um foi de um servidor da Funai. Entre os casos de indígenas, um teve bastante repercussão, inclusive internacional: o de Paulo Paulino Guajajara, que integrava os Guardiões da Floresta, grupo formado pelos indígenas para proteger o território de madeireiros e invasores. Um ano depois do crime, a família de Paulino enfrenta dificuldades financeiras e sofre ameaças. Os dois madeireiros indiciados pela morte do guardião da floresta tiveram a prisão preventiva decretada, mas continuam soltos. (veja os principais números no RAIO-X abaixo).
O Pará, campeão nacional dos assassinatos em 2019, contou ainda com uma chacina – a de Baião, em que seis pessoas foram executadas em 24 horas.
Todas essas histórias podem ser conhecidas em profundidade no Cova Medida.
Saiba mais sobre o Cova Medida
O especial Cova Medida, cujo nome foi inspirado na obra de João Cabral de Melo Neto – que Chico Buarque musicou em “Funeral de um Lavrador”, tem como base o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre os assassinatos em conflitos no campo. A Repórter Brasil atualizou o andamento das investigações até 20 de janeiro de 2021. Teve ainda participação do advogado Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz, na classificação do status das investigações.
A plataforma multimídia apresenta uma exposição dinâmica dos casos, com uma introdução que mostra as principais conclusões da investigação. O Cova Medida oferece também um perfil das vítimas e relatos de como ocorreram suas mortes; histórias de chacinas; entrevistas e áudios emocionados de familiares, e duas grandes reportagens: uma que reúne as principais descobertas da investigação (e que traz ainda entrevistas com Marina Silva, Sônia Guajajara e João Stédile) e outra que investiga cinco crimes impunes há mais de uma década, para entender se o fator tempo colabora com a justiça (em só um deles houve julgamento, condenação e prisão). Além disso, a plataforma disponibilizará um podcast produzido em parceria com a Rádio Novelo. Com participação dos repórteres autores das investigações e familiares e amigos de algumas vítimas, o podcast terá cinco episódios e estreia no dia 3 de fevereiro.
Ajude a divulgar o Cova Medida!
Em uma iniciativa inédita e comprometida em colaborar com a imprensa nacional e internacional, a Repórter Brasil disponibiliza as reportagens e conteúdos referentes ao especial Cova Medida, desde que adotadas as regras creative commons (saiba mais abaixo).
O especial completo está disponível em www.reporterbrasil.org.br/covamedida/
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RAIO-X DA VIOLÊNCIA E DA IMPUNIDADE NO CAMPO
AMAZÔNIA LEGAL
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