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Pesquisa aponta educação como ferramenta para a emancipação feminina

Em seu trabalho, pesquisadora Aline Debossan Velozo investiga a reprodução de conceitos, valores e cultura de escolas construídas para a manutenção das estruturas dominantes no poder

Agência Brasil por Agência Brasil
22 de julho de 2024
em Brasil
Foto: Reprodução/Canva

Foto: Reprodução/Canva

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Aline Debossan Velozo é graduada em Educação Física pela Universidade Norte do Paraná (Unopar) e em Pedagogia pela União Brasileira de Faculdades (UniBF). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutoranda em Estudos de Cultura Contemporânea pela mesma instituição, a bolsista da Capes pesquisou o protagonismo das mulheres nas escolas.  

Quais foram as descobertas de sua pesquisa?  

Minha pesquisa de mestrado, intitulada “O feminismo na educação: da feminização do magistério ao protagonismo das mulheres nas escolas”, explorou a relação entre educação, feminismo e fazer docente, a partir das práticas pedagógicas de professoras do Ensino Médio de uma escola estadual de Cuiabá – MT.  Em um primeiro momento, dediquei esse estudo de caso à produção de um levantamento bibliográfico abrangente, abordando desde os fundamentos históricos da violência contra as mulheres na sociedade, até a emergência dos movimentos feministas e seus impactos na cultura contemporânea.  

Ao investigar a atuação de professoras do Ensino Médio, com temas e pautas de concepções feministas em suas práticas pedagógicas, foi possível compreender o potencial crítico transformador do trabalho docente feminino, especificamente no ensino médio, junto à juventude. Paradoxalmente, identifiquei uma reprodução de crenças sobre como as mulheres “deveriam” pensar, se comportar e interagir, com base na visão limitada do binarismo de gênero (ou feminino ou masculino), revelando uma compreensão estigmatizada dos feminismos, a ponto de reforçar estereótipos e naturalizar violências contra as mulheres. 

Na pesquisa, também problematizei a imagem da “professorinha” como vocação natural da mulher para o magistério, como uma catequese dos ensinamentos sobre o lar e o cuidado com marido e filhos. A partir disso, pude refletir sobre como os modelos escolares (concentrados em atender demandas do mundo do trabalho e alinhados aos interesses das classes dominantes), têm contribuído para o rebaixamento da função docente; assim como, para a desvalorização da mão de obra feminina – muitas vezes restrita aos serviços do cuidado – seguindo a mesma lógica de desmerecimento das mulheres na sociedade.

O que é mais relevante em seu trabalho? 

No desenvolvimento deste estudo de caso, fui compreendendo o impacto do tema pesquisado na minha própria itinerância de vida; reconhecendo meus lugares de fala, de luta e de resistência, como mulher. Na investigação sobre as experiências das professoras, ao focar especialmente na maneira como elas negociavam (ou não) seus papéis de gênero enquanto educadoras, foi necessário refletir e questionar, por diversas vezes, os lugares-comuns e as concepções superficiais sobre empoderamento feminino; principalmente porque a pesquisa se dava em um contexto geográfico-cultural significativamente influenciado por valores patriarcais e determinismos de gênero. 

Percebo que minha pesquisa de mestrado contribuiu para fortalecer minhas escolhas, enquanto educadora, pela educação crítica – principalmente a partir de Bell Hooks, Libâneo e Paulo Freire – uma força que busca romper e superar o tradicional, a reprodução de conteúdo, de conceitos, de valores e de cultura de escolas, até então, construídas para manutenção das estruturas dominantes no poder.  

De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade? 

A publicação da minha dissertação é parte do meu compromisso pessoal com a luta pela equidade de gênero, na intenção de inspirar novos olhares para a importância da educação como ferramenta para a emancipação das mulheres na sociedade. 

Se considerarmos os temas transversais, indicados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, encontraremos eixos temáticos amplos e abrangentes, como ética, saúde, orientação sexual, pluralidade cultural, trabalho e consumo, entre outros, que impactam diretamente a vida dos estudantes. Com essa previsão legal, as escolas podem – e devem – se articular para desenvolver projetos interdisciplinares que fomentem a reflexão sobre as variadas formas de construção da identidade social e individual das mulheres.  

Estimular e difundir conhecimento e compreensão sobre como são moldadas, transformadas ou mantidas as dinâmicas de gênero e poder na sociedade é uma prática educativa que colabora com a construção de um futuro mais seguro e igualitário para todos, todas e todes. A publicação dessa dissertação de mestrado endossa as vozes críticas sobre “nascer, ser, existir e resistir mulher” – tema que aprofundo agora, em meu doutorado.  

A contribuição social da minha pesquisa está, portanto, no apontamento de caminhos para reconstrução dos processos de formação docente, por meio de discursos e práticas pedagógicas que problematizam os papéis deterministas e estereotipados de gênero – e a urgência de superá-los para promoção da equidade e da justiça social.  

De que forma a bolsa da Capes contribui para sua formação? 

Compreendo que a bolsa de demanda social da Capes foi um suporte essencial para a difusão dos conhecimentos que produzi e, ainda produzo, na universidade. Ser contemplada me permitiu, nos últimos anos, dedicar-me quase integralmente à formação acadêmica e profissional de alto nível, algo que nenhuma outra mulher antes de mim havia feito em minha família.  

Como pesquisadora bolsista da pós-graduação, investigando feminismos, senti o reconhecimento e o suporte da CAPES com relação à produção científica das áreas humanas; o que me encorajou a seguir para o doutorado, coordenando um grupo livre de estudos com mulheres, o Travessia, atualmente disponível para acesso na página https://linktr.ee/ocaminhodasmulheres . 

Tags: BrasilEducaçãoMulheresMundo

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