E se o mundo enfrentasse a desigualdade com o mesmo poderio científico que dedicou à crise climática?
Essa é a ideia por trás de uma proposta que vem ganhando apoio de líderes mundiais e especialistas para criar um novo “Painel Internacional sobre Desigualdade”, um órgão independente que reuniria evidências sobre as causas e consequências do aumento das disparidades e ajudaria os governos a entender o que pode ser feito a respeito.
Níveis alarmantes de desigualdade
A iniciativa foi destaque em Nova York, no dia 23 de setembro, em um evento à margem da semana de alto nível da Assembleia Geral da ONU, convocada por Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha.
A vice-secretária-geral Amina Mohammed discursou em nome do líder da ONU, António Guterres, apresentando o desafio em termos contundentes, alertando para a crescente concentração de riqueza e poder e os riscos que isso representa para as sociedades e o sistema internacional.
Para Guterres, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 10 convida todos a reduzir a desigualdade dentro e entre as nações. No entanto, existem níveis alarmantes de desigualdade de renda e riqueza, com os 10% mais ricos da população mundial detendo agora 75% de toda a riqueza”.
Quando a tecnologia amplia a crise
Para o secretário-geral, a preocupação não é simplesmente a escala da desigualdade atual, mas a rapidez com que ela pode se aprofundar.
Ele alertou que o rápido desenvolvimento de tecnologias de ponta pode agravar consideravelmente as disparidades existentes, principalmente se a riqueza e o poder dessas tecnologias permanecerem concentrados em poucas mãos.
“O surgimento vertiginoso de tecnologias de ponta – e a concentração da riqueza e do poder dessa tecnologia em um número ínfimo de pessoas – pode desencadear uma desigualdade global em uma escala muito maior do que qualquer coisa que já tenhamos visto”, afirmou.
As consequências, alertou, vão além da renda familiar e das oportunidades individuais. A desigualdade desenfreada pode minar as instituições democráticas e aprofundar o desequilíbrio de poder entre os países.
Controle de poucos?
António Guterres disse que “um mundo onde apenas alguns países poderosos podem exercer controle sobre a segurança global e a arquitetura econômica global é uma bomba-relógio”.
De acordo com o chefe da ONU, o Painel Internacional sobre Desigualdade proposto buscaria colocar evidências independentes e baseadas na ciência no centro da resposta global.
O painel reuniria especialistas para analisar a escala, as causas e as consequências da desigualdade e identificar opções políticas práticas disponíveis para os governos.







